Termos de Uso para serviços de software e de internet costumam ser bons para duas coisas: inspirar grande indignação em quem lê, ou simplesmente servir como uma lombada textual entre nós e esses serviços. Mas ultimamente parece que eles tem sido bons para outra coisa também: esconder mensagens secretas. Aliás isso é a cara de algumas empresas como facebook e Apple e não é a primeira vez que falamos disso aqui no site.

Algumas empresas até mesmo brincam com o fato da grande maioria das pessoas não lerem os contratos que aceitam, principalmente quando falamos do mundo virtual. Dois conhecidos exemplos explicam bem isto.

Em 2005 , Doug Heckman resolveu ler o contrato de um serviço adquirido da empresa de software PC Pitstop e encontrou, no meio das cláusulas, uma nota inusitada. A nota afirmava que um número limitado de pessoas que lessem o documento e entrassem em contato com a  PC Pitstop  receberia  um prêmio.  Doug assim fez e recebeu para sua surpresa mil dólares. O incrível é que foram necessários 3 mil cadastros feitos e 5 meses até que alguém percebesse a brincadeira.

Veja abaixo a nota inclusa no contrato de licença encontrado na PC Pitstop:

Captura de Tela 2015-01-18 às 16.18.32

fonte: www.pcpitstop.com

 

A  loja de jogos GameStation, em 2010,  também fez uma experiência similar e inseriu uma cláusula que fazia o usuário ceder os direitos da própria alma à empresa. Impressionantemente 7 mil pessoas entregaram suas almas à GameStation. 

Infelizmente não são só brincadeiras ou premiações que encontramos escondidas nos “Termos de Uso”  que existem por aí.  Para entendermos os riscos ao aceitar esses contratos sem lermos as cláusulas, basta observar abaixo algumas pérolas encontradas nos contratos de algumas empresas, no momento em que nos oferecem seus serviços virtuais:

Sony

“Quaisquer processos judiciais de resolução de disputa, seja em arbitragem ou tribunal, serão conduzidos somente de forma individual e não em uma ação coletiva ou representativa.”

Os usuários da PlayStation Network, em conjunto, são proibidos segundo o contrato da PSN, de mover processos contra a Sony. A cláusula com esta proibição de se mover  as ações judiciais em grupo foi adicionada discretamente e “coincidentemente” depois da crise gerada por uma invasão da PlayStation Network, onde  77 milhões de usuários ficaram expostos a hackers.

 

facebook

“Os tipos de informações listados abaixo estão sempre disponíveis publicamente e são tratados da mesma forma que as informações que você decidiu tornar pública.”

Esta frase, contida no contrato de adesão do facebook, embora muitas vezes receba a justificativa de ser imprescindível para o funcionamento da rede, abre espaço a  invasão da sua privacidade e a comercialização de seus dados pessoais. E claro , dados como seu nome, fotos do perfil e rede de amigos são sempre tratados como públicos.

E o que diz o contrato caso você não concorde com este termo?  Simples:  “Se você se sente desconfortável em divulgar seu nome real, pode desativar ou excluir sua conta.”

 

Mas então por que é tão difícil para as pessoas lerem esses contratos?  Uma das principais causas e é a falta de tempo e as empresas sabem disso. Não é a toa que esses documentos tendem a ser extensos e parecem terem sido feitos para ativar nossa preguiça e impaciência. 

Segundo a tabela abaixo , levaria 27 minutos para lermos as 16 páginas contidas no contrato da Apple Store. Algo muito difícil nos dias de hoje.

 

Tabela: Tempo aproximado para leitura de termos de adesão e políticas de privacidade na internet

Tabela tempo de leitura contratos

fonte:www.Super.abril.com.br

 

Não são poucos os que mundo a fora lutam por uma melhor transparência destes contratos de “Termos de Uso” e pela manutenção dos direitos fundamentais dos consumidores.

Recentemente em uma tentativa de alertar as pessoas para este problema. o artista Florence Meunier resolveu vasculhar os termos e condições determinados pela Apple para o iCloud e encontrou uma história intrigante e que merece ser destacada. Intitulado “O homem que concordou”, o panfleto aplica liberalmente uma redação no estilo CIA,  ao documento original da Apple, revelando a verdade sobre como nós muitas vezes interagimos com esses contratos. Meunier chama o EULA (End-user license agreement) da Apple de “talvez um dos acordos mais negligenciados e ambíguos que fazemos” e diz que “clicando em ‘Eu concordo’ aceitamos condições bastante estranhas sem nem mesmo estarmos cientes, porque de alguma forma já acreditamos que a própria concepção desse contrato não se destina à leitura.

Seu trabalho é interessante e aqueles que assistiram o filme “Uma Mente Brilhante”  logo entenderão o trabalho do artista.

Termos de Uso Apple

themanwhoagreed_03

 

Ele imprimiu a licença da Apple para uso do iCloud e usando as palavras deste documento, narrou uma história.

“Decidi influenciar o usuário a ler a licença”, escreve Meunier. “O objetivo é levar o usuário a leitura, ou simplesmente se divertir e, portanto, interessá-los.”

Um trecho da história narrada:

Esta é a história de um homem,
que um dia estava muito ocupado
ou talvez com preguiça
então ele muito rapidamente,
clicou em Concordo.
O que esta não estava previsto,
é que ele nunca poderia voltar a discordar.
A lição dessa história é
que não se deve admitir,
algo que não se lê.

Você pode ver mais fotos do projeto em For Print Only.

Florence Meunier usou de uma espirituosa brincadeira para chamar atenção para um sério problema e nos dá um aviso de que esses inofensíveis contratos não são tão inofensíveis assim.

 

Sobre o autor

Administrador e Editor - Graduado em Tecnologia da Informação e hard user de tecnologia

  • Savio Costa

    Não ler é como assinar um cheque em branco e entregar na mão da empresa que se contratou o serviço.

    • Francisco Gomes

      Concordo, mas ler e não aceitar jamais usará os serviços, pois todos sem exceção serão bloqueados.

      • Savio Costa

        Verdade , praticamente todos os termos de uso são feitos desta forma. Mas precisamos externar nosso protesto quanto a isso cobrar aos órgãos competentes que tomem uma atitude e obriguem as empresas a mudarem a forma como redigem esses textos e limitar o tanho deles.

  • Savio Costa

    Verdade , praticamente todos os termos de uso são feitos desta forma. Mas precisamos externar nosso protesto quanto a isso palanque os órgãos competentes tomem uma atitude e obriguem as empresas a mudarem a forma como redigem esses textos e limitar o tanho deles.